Crônicas postadas no Overmundo e Jornal Diário do Pará



REVIRANDO A VIDA

20/03/2009
Muitos amigos andam perguntando por onde tenho andado. Para esses corações bondosos e fraternos respondo que precisei ir atrás de arrumar o muito que já andava desarrumado no meu interior. Como a vida, muitas vezes, retalha nossas almas, tirei um tempo para refazer e costurar muitos dos meus próprios pedaços que andavam espalhados pelas noites dos anos e outros pelas esquinas escuras das desesperanças.

Nesses quase quarenta dias de ausência, sonhei, que grande ilusão, que poderia copiar as almas dos santos e ser o amortecedor de todas as minhas dores e de muitos sofrimentos alheios que tenho presenciado durante a minha caminhada. Talvez, não tenha conseguido grandes vitórias, mas, as poucas que consegui, fizeram com que essa decisão não terminasse com o amargor da inutilidade total.

Aprendi nesse meu forçado retiro do espírito que não podemos jamais apagar nossas dores, nem maquiar nossas cicatrizes. Podemos, entretanto, administrar nossos infortúnios, principalmente, se perseverarmos em buscar no invisível a fé que um dia pensamos não mais existir. Fácil conclusão... embora sendo de dificílima execução. O certo é que estou de volta, porque também aprendi que nada é impossível para os corações que não desistem do amanhã.

Durante esse tempo, dormia tão tarde e acordava tão cedo que nem dava tempo para sonhar ou pensar nos múltiplos encantamentos que a vida pode nos oferecer, fatos que só os corações riscados pela foice da perda podem e sabem sentir. Coisas da vida, disse-me um amigo durante uma conversa. Coisas da inexistência de vida, retruquei.

Talvez, por ser profundamente angustiante nossa visão de humanos, nos sentimos, muitas vezes, impotentes para podar nossas saudades e ficamos quase a desistir de acreditar na eternidade, nos reencontros soberbos entre a carne e o espírito, entre a vida e a vida eterna, entre um passado insípido e o futuro infinitamente feliz, acabamos, por culpa dessas incertezas, vivendo muitos apavorantes momentos de solidão e de um dilacerante estado emocional.

De repente nos sentimos perdidos no meio da selva da vida e não conseguimos ver o dedo iluminado de Deus nos apontando o caminho da luz, do sol da liberdade interior. Agora, mais do que nunca, sei o quanto devem sofrer os corações ateus.

Mesmo rodeado de multidões. De braços e pernas que caminham acelerados para o sempre, viramos reféns desses sofridos momentos de nos sentirmos prisioneiros de um cativeiro sem grades. Nessa hora viramos uma ingrata e cinza realidade de um inverno interior. É na precisão de um segundo que precisamos ser audazes para não adormecermos nos braços do infortúnio, do desanimo, da apatia pela vida.

Quando conseguimos perceber que já nos cansa ver nossas próprias cicatrizes e não mais vibramos com o esplendor das alvoradas. Quando somos a dor que não mais encontra o remédio salvador e quando os finais de tarde nos parecem melancólicos, angustiantes, monótonos, precisamos ser prudentes para frear essa onda gigantesca que sobe dos noturnos oceanos espumantes da desilusão e das tristezas infindas.

Quando a floração encantada da vida murcha seu viço no solo da nossa alma por culpa das dores de uma solidão que fica a verrumar nossos corações a cada segundo do dia, precisamos repensar urgentemente nossas caminhadas. Se nos sentimos isolados de tudo por fatos da vida que já aconteceram e não mais podemos mudar, remediar, é de bom senso não esquecermos que sempre teremos tempo de olhar para frente, de dar um novo passo para reconstruirmos a felicidade que um dia pensamos que partiu para não mais voltar.


Depois de cuidar das coisas da alma, volto a escrever com a tinta divina da fé, que abençoadamente penso recuperada e porque torno a sentir no coração que cada amanhecer pode ser sempre o começo para uma revirada da vida. Volto, dessa maneira, a ser o avesso da desesperança, o lado contrário da dor.

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Por: Noélio A. de Mello
 

Comentários

 
Data: 28/12/2009
Nome: Enilda
Comentário: Que o seu ano sabático tenha dado os frutos esperados. Só teremos a lucrar com a sua volta.
 
Data: 22/09/2009
Nome: Patricia Amorim
Comentário: E, caso haja outra recaída, não há o porque de impedir. Sinta novamente reavaliando e repensando suas agruras e levante, como bem sabes fazer. Abçs.
 
Data: 14/04/2009
Nome: Maria das Graças Simões Oliveira
Comentário: Amigo Noélio Que bom, sua ausência nos entristece, suas crônicas afagam a nossa alma. Que Deus te renove sempre. Graça
 
Data: 06/04/2009
Nome: Enilda
Comentário: Prezado poeta, prefiro acreditar qeu "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.F.P". Bom retorno e boa páscoa.!

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